terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Tombados para morrer

A falta de fiscalização leva à deterioração de imóveis históricos e, com isso, apaga a história do Brasil.

Apenas a fachada ficou em pé neste casarão (Praça Mauá) - Foto: Luiz Martins
A degradação de casarões tombados virou uma coisa comum no estado do Rio de Janeiro. São diversos patrimônios culturais, casarões históricos, que sofrem com o abandono por parte dos órgãos competentes. Mesmo com algumas entidades que defendem a preservação do patrimônio do estado, a falta de fiscalização permite que fachadas sejam descaracterizadas e prédios históricos se tornem ruínas.

Alguns prédios históricos no centro do Rio caindo aos pedaços - Foto: Luiz Martins
Alguns prédios, conhecidos pelas suas riquezas arquitetônicas, perderam suas características devido à degradação. Infelizmente, temos uma fiscalização falha e governos que não se preocupam com a história do Brasil.

Alguns exemplos de abandonos que levaram à degradação de prédios históricos.

FAZENDA SÃO BERNARDINO EM TINGUÁ (NOVA IGUAÇU-RJ)

Fazenda Bernardinho - Foto: Luiz Martins
Os restos de uma bela História. A Fazenda Bernardinho em Tinguá, Nova Iguaçu, já foi uma das grandes fazendas do Brasil, com uma história belíssima. Situada na RJ-111, mais conhecida como Estrada Zumbi dos Palmares, estão as ruínas da antiga Fazenda São Bernardino. Construída em estilo neoclássico em 1875, pelo português Bernardino José de Souza e Melo, seu primeiro dono, a fazenda foi tombada pelo Patrimônio Histórico em 1951. A fazenda contava com cavalariças, garagem para carruagens, senzalas, habitações para escravos e engenhos de cana e mandioca. Até ser destruída por um incêndio na década de 1980. Atualmente, quase não resta mais nada daquela antiga estrutura, onde se produzia e exportava açúcar, farinha de mandioca, café e carvão. É uma pena que os governantes não gostem de preservar a história do Brasil.

FAZENDA DO VIEGAS.

Fazenda do Viegas - Foto: Luiz Martins
Um tesouro histórico que nunca foi protegido pelo poder público. A Fazenda do Viegas, em Senador Camará, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Tombada pelo IPHAN em 1938, a Fazenda foi construída em 1725 para ser a sede de uma fazenda de cana-de-açúcar, que se tornou pioneira no cultivo do café em todo o estado do Rio. Toda a produção era feita por escravos. A casa rural tem ampla varanda com colunas toscanas de alvenaria, além de uma capela. Vários instrumentos de tortura que serviam para punir os negros continuam instalados no local. Consta que D. Pedro II se hospedou lá em suas andanças pela região. Em 1996, a prefeitura do Rio implantou ali o Parque Municipal do Viegas, com acesso pela Rua Marmiari 221. Além do total abandono e com todas as paredes pichadas, quase tudo no interior da Fazenda foi roubado. Como tudo que é tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), é mais uma história do Brasil jogada no lixo.

LE PARIS - UM HOTEL CINCO ESTRELAS NO CENTRO DO RIO.

Hotel Le Paris - Foto: Luiz Martins
Para quem não conhece, este é o Hotel Le Paris, na Praça Tiradentes, na cidade do Rio. Construído em 1902, é também um monumento tombado pelo IPHAN. No ano de 2010, foi anunciado que o prédio seria reformado e transformado no primeiro hotel cinco estrelas do Centro do Rio. De acordo com informações na época, o centro histórico do Rio de Janeiro iria ganhar um novo hotel de luxo e seria inaugurado em 2015, para atender às demandas das Olimpíadas do Rio em 2016. O projeto previa 21 suítes de luxo, com restaurante no primeiro andar e um bar com piscina na cobertura. Nada foi feito e o prédio continua caindo aos pedaços.

FAZENDA SÃO JOSÉ.

Fazenda São José - Foto: Luiz Martins
Primeira edificação do município de Porciúncula, no interior do estado do Rio de Janeiro, a fazenda está implantada na raiz de um conjunto de pequenas elevações irregulares entre elas e a estrada da Barra, que dá acesso à região. Das elevações nascem as águas que servem à fazenda. A fazenda foi construída na primeira metade do século XIX com todas as características da construção colonial mineira. O que resta da construção original são as paredes exteriores e partes das vigas e pilares de sua fundação, que seus proprietários pretendem deixar expostas para mostrar o trabalho dos construtores do século XIX. A casa não possui mais as senzalas e outros edifícios que compunham uma fazenda do século passado, como celeiros e armazéns para café.

CASARÕES DE SANTA TERESA (RJ).

Casarão de Santa Teresa - Foto: Luiz Martins
Santa Teresa, localizada na zona central do município do Rio de Janeiro, no alto de uma serra entre as zonas sul e central da cidade, é conhecida pelas construções históricas do século XIX, além de elegantes casarões construídos até os anos 1940. 

História de Santa Teresa caindo aos pedaços - Luiz Martins
A maioria dos casarões está abandonada e caindo aos pedaços.

CASARÕES DA LAPA (RJ).

Casas históricas da Lapa caindo aos pedaços - Foto: Luiz Martins
Conhecido como um bairro boêmio e vibrante, a Lapa é famosa por seus bares tradicionais, casas noturnas com música ao vivo, salões de dança e rodas de samba ao ar livre abaixo dos Arcos da Lapa, um aqueduto em estilo romano. 

Escadaria Selarón - Foto: Luiz Martins
Outra concentração de vida noturna é a área em torno da Escadaria Selarón, uma obra arquitetônica única adornada por mosaicos de azulejos pintados à mão. Porém, as antigas casas que fazem parte da história da Lapa estão se desfazendo a olhos vistos e nada acontece para preservá-las.

CASARÕES NO CENTRO DO RIO.

Apenas a fachada ainda continua em pé - Foto: Luiz Martins
O centro da cidade do Rio de Janeiro é cheio de casarões antigos, que atualmente é moradia de bandidos e traficantes. Mesmo com a política de reurbanização que visa minimizar o problema, o centro tem muitos casarões invadidos. O abandono de edifícios antigos é uma realidade em várias partes do centro do Rio e uma das causas da perda do patrimônio histórico. Mesmo daqueles que passaram pelo processo de tombamento e que deveriam ser preservados, estão se desmoronando.

O mato na varanda não faz parte da decoração, mas o retrato do abandono - Foto: Luiz Martins
No Brasil, não há leis mais rígidas para preservação do patrimônio, o que resulta em perda de patrimônios históricos, devido ao abandono por parte de seus donos ou mesmo pela negligência do poder público. Os exemplos estão em todos os cantos da cidade do Rio e, infelizmente, parece que não haverá solução em tempo hábil para revertermos esses processos de deterioração.

SÍTIO ARQUEOLÓGICO CAIS DO VALONGO.

Cais do Valongo - Foto: Luiz Martins
O Sítio Arqueológico Cais do Valongo, localizado na Av. Barão de Tefé, zona portuária do Rio de Janeiro, ganhou o título de Patrimônio Mundial da UNESCO. O lugar foi o principal porto de entrada de escravos africanos no Brasil e representa a exploração e o sofrimento das pessoas que foram trazidas à força ao país até meados do século XIX. O título joga luz sobre um passado de escravidão que deixou como herança uma profunda desigualdade social entre brancos e negros e um racismo estrutural nem sempre reconhecido. Contudo, os prédios construídos ao redor do Cais, que também fazem parte da história, estão abandonados e caindo aos pedaços.

(Por Luiz Martins)
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